Cargnin: Meu sonho era medalhar em Tóquio, no Grand Slam. Veio na Olimpíada!
Primeiro medalhista olímpico do judô brasileiro em Tóquio revela bastidores de sua conquista nos Jogos de Tóquio
O sonho da medalha no Japão é um clichê do judô por toda a história da modalidade no país que criou o Caminho Suave. Mas, poucos são os judocas que, realmente, têm a oportunidade de subir ao pódio no país do judô. O jovem brasileiro Daniel Cargnin foi um dos que conseguiu o feito ao vencer o israelense Baruch Shmailov na disputa de bronze dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.
“Eu sempre tive um sonho de medalhar aqui em Tóquio, mas era no Grand Slam. E veio logo numa Olimpíada”, comentou ainda surpreso com a própria façanha ao sair do sagrado tatame da Nippon Budokan, o templo do judô. “Eu tinha tanto isso na minha cabeça que, uma vez, eu vim lutar o Grand Slam aqui e perdi. Mas, naquela noite, eu sonhei que tinha ganhado e acordei muito feliz, por alguns segundos eu achava que tinha ganhado mesmo. Mas, era só o sonho. Hoje, quando estava no pódio, por um momento, desconfiei que poderia estar sonhando de novo. Mas, dessa vez, era verdade. A ficha não caiu ainda.”
Desde o primeiro segundo que pisou no tatame, Daniel demonstrou atitude de campeão. Era perceptível seu foco no olhar e em cada movimento sobre o shiai-jo. Os adversários também perceberam e, um a um, sucumbiram a um Cargnin elétrico que distribuiu golpes e, em sua primeira participação, esbanjou segurança de um veterano.
Mas, nem sempre foi assim. Em muitos momentos, ele duvidou de si mesmo e teve o apoio necessário para persistir em busca de seu sonho.
“No início eu não acreditava muito em mim. Mas, o professor Ney Wilson, o pessoal da comissão técnica sempre falava `eu acredito em ti na Olimpíada`. Às vezes não entendia isso. Mas, eu sou gaúcho, tenho a determinação e a garra”, brincou.
Foi com muita garra que ele desbancou o então número um do mundo e vice-campeão mundial, Manuel Lombardo, da Itália, nas quartas-de-final, mostrando para todos que não veio a Tóquio a passeio.
“Ele tem um estilo muito calmo, tranquilo e confiante no tatame. Eu sabia que precisava quebrar essa segurança dele de alguma forma logo nos primeiros minutos. E na última vez que lutamos eu ganhei dele, em Brasília. Ele sempre começa a luta dando um toque com a perna. Mas, dessa vez, ele não fez isso e eu percebi que tinha algo diferente, que talvez estivesse, pelo menos, me respeitando”, revelou ao descrever o combate com o italiano vencido pelo brasileiro com um waza-ari a poucos segundos do fim.
Na semifinal, Cargnin manteve a agressividade contra o bicampeão mundial Hifume Abe, mas não superou o japonês, que conseguiu o ippon.
No retorno à área de aquecimento após a primeira derrota no dia, Daniel tentou afastar pensamentos negativos e que lhe traziam dúvidas sobre como reagiria na disputa de bronze. Para isso, contou com a ajuda de um ídolo do esporte, o português Cristiano Ronaldo.
“Na disputa de terceiro lugar, vai do céu ao inferno muito rápido. Ou fica com o bronze ou sai como quinto. Eu botei um videozinho do Cristiano Ronaldo, em que ele fala assim: “se tu não acreditar, pode não ser, mas se tu não acreditar, quem vai?”, conta. “Eu não estava focando no presente. Olhei para os meus pés, fiquei imaginando o sentimento de ganhar ou perder, mas eu estava ali. O vídeo me ajudou a ficar mais tranquilo.”
Focado no presente, mas com boas lembranças do passado, Daniel ganhou ainda mais confiança para buscar a medalha. Lembrou que o adversário do bronze seria um israelense que ele havia vencido em 2020, no Grand Slam de Tel Aviv.
“Nessa última luta eu pensei `esse cara lembra que da última vez que a gente lutou eu ganhei dele`. Eu tentei me motivar por ter perdido a semifinal”, relembra.
E foi assim que a medalha chegou ao peito do brasileiro no melhor estilo judoca: mente, espírito e corpo forte. Firme e inteiro fisicamente, Daniel achou um waza-ari e segurou a vantagem durante longos dois minutos até ouvir o sore madê, o comando do árbitro que finaliza o combate.
“Quando vi que faltavam três segundos, olhei para a arquibancada e vi o professor Ney comemorando. Só pensava que não podia fazer nenhuma m… naquela hora”, contou, divertindo-se com o próprio drama.
O bronze de Daniel Cargnin consolida o processo de transição do jovem atleta que, em 2016 foi sparring no Rio, e cinco anos depois de muito trabalho, investimento e preparação chegou ao seu objetivo principal: a medalha olímpica.
Cargnin é atleta da Sogipa, de Porto Alegre, onde treina com o sensei Kiko Pereira; recebeu apoio da CBJ e COB desde as categorias de base, integrando as seleções sub-18 e sub-21 até conquistar seu espaço no time principal neste ciclo olímpico. Ele conta ainda com apoio do Governo Federal por meio da Bolsa Pódio e do Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas integrado como sargento à Marinha do Brasil.