ALÉM DO JUDÔ - Judoca e advogado
Na primeira entrevista da série “Além do Judô”, o ligeiro Phelipe Pelim (60kg) fala sobre sua formação em Direito e os desafios para conciliar livros e treinos em alto rendimento
Justiça é um dos princípios morais do Bushido, o código de conduta dos Samurais que rege também o comportamento e a vida dos judocas. E foi esse princípio que o peso ligeiro da seleção brasileira de judô, Phelipe Pelim, escolheu para guiar também sua formação acadêmica.
A tarefa de conciliar treinos e livros foi árdua, mas não impediu que o catarinense, natural de Itajaí, concluísse, em 2013, o curso de Direito, na Universidade Paulista (UNIP). Em 2015, veio a pós-graduação em Direito do Trabalho e um estudo sobre os direitos trabalhistas de condenados em situação de cárcere e pós-cárcere.
Mas, como “descobriu” o Direito? Quais foram as dificuldades e conquistas? O Phelipe Pelim compartilhou essa história com a gente na primeira entrevista da série especial “Além do Judô”.
Leia abaixo:
Como “descobriu” o Direito? Qual foi sua maior motivação?
Phelipe Pelim: Na verdade, eu comecei um semestre de Educação Física, por ser tudo mais parecido com a vida que a gente leva, de treinos e competições. Mas, acabei não gostando muito e queria trocar de curso. Até estava pensando em Fisioterapia, mas não abriram turmas e, como já estava na metade do ano, abriu a turma do Direito. Pensei: ‘Poxa, por que não, né? Vou começar. Para minha surpresa, acabou que a minha família me apoiou bastante nesse curso, minha namorada também. Então, nos dias que eu não conseguia levar por causa do cansaço dos treinos, acabava que o apoio deles me ajudava bastante para continuar estudando e tentando conciliar com os treinos.
Com o tempo, os semestres foram ficando mais legais, eu fui gostando mais. O começo foi bem difícil. O primeiro ano e meio foi bem difícil até eu conseguir me adaptar e conseguir realmente conciliar os treinos com os estudos. Mas, depois do segundo ano em diante, eu comecei a gostar realmente do curso e a ir por prazer mesmo para a aula. Porque, no início, eu ia meio que arrastado por causa dos treinos. Estava todo quebrado, cansado. Ia me arrastando, mas eu ia para a faculdade. Depois do segundo ano, eu comecei realmente a ter prazer em estudar as matérias do Direito.
Em qual área do Direito você pretende se especializar?
PP: Depois que eu terminei a faculdade eu tive a oportunidade de lutar mais uma Universíade. Então, topei fazer uma pós-graduação, na UNIP também, onde eu me especializei em Direito do Trabalho. Essa é a área em que pretendo atuar depois que acabar minha carreira de atleta e, se Deus quiser, depois de ter conquistado minha vaga olímpica. Acho bem legal e é uma área que eu tenho mais facilidade para estudar e para entender os princípios e as leis. Então, é uma área que eu acho bem divertida.
Quais aprendizados do Judô te ajudaram na universidade?
PP: A disciplina que o Judô passa, desde quando a gente é criança até o alto rendimento, com os treinos, com a alimentação, com o tempo de descanso, eu consegui transferir isso também para a faculdade. Quando eu estava na aula eu buscava estar 100% ali, estudando e focando. Até porque, o tempo para estudar depois para as provas, eu não ia ter muito, por conta dos treinos. Quando tinha semana de provas, eu estudava entre um treino e outro. Assim, fui conseguindo conciliar.
Qual foi o tema do seu TCC?
PP: O tema do meu TCC na faculdade foi a reabilitação do condenado pós-cárcere. Como que funcionava essa reabilitação, porque, no Brasil, o sistema prisional e penal preza pela reabilitação do condenado. Por isso que a gente também não tem pena de morte no Brasil, porque se pensa na reabilitação do condenado. Na pós-graduação, eu fiz um gancho com isso, só que pegando os direitos trabalhistas do condenado durante a prisão e pós-cárcere.
Quais dicas você daria para quem quer conciliar faculdade e treinamento de alto rendimento?
PP: A dica que eu dou para quem vai começar a faculdade e tem vontade de começar o curso de Direito é que nada é fácil para a gente conquistar na vida. No Judô, para ser campeão, entrar na Seleção Brasileira é sacrificante. Mas, precisa ser prazeroso. A dica que eu deixo é não desistir quando se sentir cansado, porque isso vai acontecer e é normal. Naquele dia que estiver mais cansado, mais dolorido, mais sem vontade, levanta, vai, e deixa o dia ir acontecendo, porque as coisas vão se alinhando depois. Então, vencer esse cansaço, eu acho que é a dica principal. E disciplina. Reservar um período do dia para os estudos funciona bem.